quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Eu não sou eclético

As pessoas costumam ser gentis para manter um bom relacionamento em grupo, no trabalho, na faculdade e nos encontros sociais dos mais diversos. Acontece que os gostos são frequentemente diferentes e, sobretudo, as pessoas são distintas umas das outras, – o que torna a existência viável do ponto de vista da multiplicidade que subverte a insipidez – inclusive os gostos são frutos da necessidade da alma. No entanto, não precisamos, por gentileza, nos “alimentar” de coisas indesejáveis para a satisfação alheia, nem, contudo, forjar a empatia de determinadas ideias e/ou vontades – muitas vezes compartilhadas por grande número de pessoas –, mas que podem ser subjetivamente (ou particularmente), abomináveis.

O ecletismo é: uma corrente filosófica que visa às diferentes teorias, opiniões, conceitos e estilos (inclusive gostos) que se divergem e, ao mesmo tempo, se coadunam; “O termo ecletismo denota a combinação de diferentes estilos históricos em uma única obra sem com isso produzir novo estilo” ¹; Com estas duas definições podemos observar, portanto, um lado positivista neste segmento filosófico e científico que pretende juntar diferenças para se obter resultados quantitativa e qualitativamente interessantes – concordo, inclusive sem dúvidas, com este aspecto –, porém, não efetivamente originais, dentro do ponto de vista da arte (por exemplo) – tendo em vista o conceito de original como sendo aquilo que é primitivo, não copiado, próprio, não proveniente de outrem, sobretudo, aquilo que (na arte) foi inventado (engenhosamente) e não apenas juntado as diferenças pertinentes –, mas que, no entanto, são aprazíveis e possuem muitos simpatizantes.

O ecletismo pode ser considerado, em questões sociais, como sendo uma solução prática às divergências de opiniões e conceitos que se conciliam para obter-se, politicamente, resultados amistosos. Nesse sentido, identificamos apenas o aspecto da praticidade de conciliar diferenças e não o aspecto pertinente à identidade da própria diferença. Entretanto, não pretendo subjugar a autenticidade daquilo que é próprio (original) ou eclético – levando em consideração que em tudo que existe, há a influência de outrem –, mas, em especial, quero considerar aquilo que é necessário essencialmente ao indivíduo, e tão somente à arte e a política (por exemplo), – mesmo existindo vantagens no ecletismo, na junção de qualidades diversas.

– Eu não sou eclético. Talvez essencialista –, porém possuo diversas influências e estou longe de ser autêntico. Todavia, o que devemos levar em consideração não é apenas o conceito, mas o que também caracteriza uma aversão ao ecletismo: em se tratando, por exemplo, da música e seus diversos ritmos – o que não me convém gostar de todos, não significa que não menos gosto de música em si; Especificamente, falando de arte visual, por exemplo, temos duas escolas divergentes, o Fauvismo e o Cubismo, ambas de vanguarda do início do século XX. Embora com características e influências em comum: De um lado, o Fauvismo, estudo artístico caracterizado pelo uso das cores fortes e temas frequentemente simples, como paisagens com cores explosivas e contrastantes, talvez exageradas – a exemplo do quadro de Henri Matisse, “A alegria de Viver”, (1905) [Figura 1]; De outro, o Cubismo, escola artística que visava uma nova construção da forma, com figuras multifacetadas e cores monocromáticas ou contrastantes – porém, o estudo cubista foi dividido nos segmentos analítico e sintético, tendo no primeiro, características cubistas já citadas e, no segundo, o uso de técnicas mistas, ecléticas –, como, por exemplo, a tela de Pablo Picasso, “Natureza morta com cadeira de palha” (1912) [Figura 2.]. Nesta obra de Picasso, é possível perceber características interessantes, como a colagem de objetos tridimensionais para obter resultado autêntico e conferir à obra um novo aspecto visual; Nesse sentido o ecletismo pode ainda possuir características positivas.

Figura 1. Henri Matisse, “A alegria de Viver”, (1905)
https://rskoggard.artspan.com/images/other_member_pics/rskoggard/matisselebonheurdevivre.jpg

Figura 2. Pablo Picasso, “Natureza morta com cadeira de palha” (1912)
http://3.bp.blogspot.com/_h434dWKta6I/SX-UtLSJ-QI/AAAAAAAAAMY/8IaCfJQmAok/s400/natureza%2Bmorta%2Bcadeira%2Bde%2Bpalhinha.jpg

Entretanto, o que talvez possa ser considerado negativo no ecletismo, está ligado à apropriação de culturas efetivamente contestáveis. Tendo em vista o caráter ético, social e político de certos aspectos culturais referidos a povos (ou grupo de pessoas) que agridem a outras culturas e, inclusive, aceitam a degradação irracional do ser humano e/ou da natureza – sendo estas questões culturais encontradas em tribos antropófagas, gangues de skinhead, sectários da homofobia, grupos antissemitas, racistas, apoteóticos do crime, etc. –, pondo em risco estas questões ontológicas.
Contudo, o que ainda pode ser preocupante no ecletismo – que levo sempre em consideração –, são as culturas (até mesmo comportamentos sutis) que agregaram essas características prejudiciais à vida. E, equacionalmente falando, podem ser encontrados vestígios destas características em diversos comportamentos culturais no nosso cotidiano.
Portanto, sou essencialista, não pretendo ser eclético para agregar influências não contestáveis. Não aceito, por gentileza, para a satisfação e/ou para inserir-me politicamente, em grupos de pessoas – não que eu seja um misantropo (antissocial) –, nem gosto de todas as coisas que me são oferecidas, até serem passadas pelo crivo da razão. Mesmo que eu possa está enganado, trato o ecletismo como algo que concerne ao comodismo da criação superficial, sem, talvez, engenhosidade para se encontrar, como na arte, a originalidade³.

1. (Enciclopédia Itaú Cultural 08/02/2007 Link - http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_ic/index.cfm?fuseaction=termos_texto&cd_verbete=357).

2. (Levando em consideração o conceito citado anteriormente como ecletismo - Nota².)

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